Como escolher um ETF? O método secreto da capivara

Os ilustres capiveiros, cidadãos desta República, sabem que a estratégia mais racional de investimento para chegar à independência financeira (FIRE) é o: investimento passivo, de baixo custo, em ETFs de acumulação, domiciliados na Irlanda, que seguem índices amplamente diversificados.

O que é beta?

Como já vimos no texto “Como funciona o mercado de ações?“, em finanças, quando falamos em risco estamos falando de volatilidade.

Relembrando, volatilidade é o sobe e desce das ondas dos mercados financeiros, o ruído em torno do sinal principal, que é o real valor de mercado do ativo.

Assim, dizemos que quanto mais volátil um ativo, mais arriscado ele é, já que é mais difícil prever qual será seu valor no futuro, pois este está variando dentro do ruído em torno do valor real. Quanto mais ruído, mas volátil, mais arriscado.

Alguns matemáticos e economistas muito sagazes resolveram calcular um número que representasse a volatilidade de um ativo, baseando-se no seu histórico de preços, para que o nível de risco de diferentes ativos pudessem ser comparados entre si.

O nome dado a este número é beta.

Beta igual à 1,0 é a referência, o risco sistêmico da média do mercado de ações. O risco inerente ao fato que é literalmente impossível prever — com exatidão — os eventos do futuro (lembrando que todas as expectativas já estão precificadas).

É muito difícil fazer previsões, sobretudo sobre o futuro.”

— Mark Twain

Ativos financeiros com beta maior do que 1,0 são mais voláteis do que a média do mercado; por outro lado, os com beta menor do que 1,0 são menos voláteis do que a média do mercado.

Exemplos de betas maiores do que 1,0 — em geral — são ações de empresas de tecnologia, ETF de small caps, ETF de países emergentes, ETFs concentrados em setores, ETFs de fatores, fundos ativos, dentre outros.

Exemplos de betas menores que 1,0 são ações de grandes e estáveis empresas como a Coca-Cola, ETFs que agrupam empresas de baixa volatilidade, large caps, ou que excluem empresas ou setores que tenham betas maiores que um, etc.

Qual é o melhor beta para independência financeira (FIRE)?

Isso depende de você e da sua tolerância a risco!

Para a minha vida, neste momento, o beta ideal é 1,0. Vejam, eu ainda não atingi a independência financeira (FIRE), portanto eu gostaria de ter a melhor relação risco / retorno possível. Em outras palavras, eu não estou disposto a assumir mais risco para que a oportunidade de me aposentar possa talvez ocorrer mais cedo, as custas de também aumentar a probabilidade que a independência aconteça mais tarde.

Por outro lado, também não quero correr menos risco que a média do mercado, pois como o meu horizonte é de longo prazo — a independência financeira — não é necessário reduzir o meu risco para menos do que a média do mercado (em troca de uma expectativa de retorono também menor que a média).

Aumentar o beta é aumentar a margem de erro em torno do número mais relevante para quem busca a independência financeira (FIRE): o número de anos até a aposentadoria se tornar uma opção.

Aumentando o seu risco pode ser que você chegue lá mais cedo, mas não há nenhuma garantia; e você também aumenta o seu risco de chegar lá mais tarde.

Sendo assim, o primeiro parâmetro que você deve saber para escolher um ETF é: qual o beta ideal para a sua situação de vida?

Note que este beta ideal pode ser também o beta total da carteira. Portanto, é possível combinar ativos de betas menores com outros de betas maiores para continuar com o beta resultante de 1,0, por exemplo; ou qualquer outro beta que combine com você.

O quão diversificado é amplamente diversificado?

O índice Nadaq-100 tem 100 empresas, o S&P 500 — naturalmente — tem 500, o FTSE Global All Cap — referência do VT — tem nada mais, nada menos que 9381 firmas!

É possível afirmar que o VT é melhor que um ETF do S&P 500 só porque ele está diversificado em um número maior de empresas?

A resposta é: não!

Há várias décadas os acadêmicos que estudam Capital Asset Pricing Model (CAPM) já descobriram que o número mínimo de empresas, racionalmente diversificadas entre si, que podem resultar em um beta de 1,0 é de apenas 60 empresas.

Portanto, em termos de incerteza para o seu futuro como pessoa financeiramente independente, não faz diferença se você está investindo no CSPX ou no VWRA. No final das contas a expectativa de retorno e o nível de risco são os mesmos, se os betas forem os mesmos.

Conclusão

Escolha o ETF, ou uma combinação deles, que te faça feliz, que caiba no seu orçamento, e que tenha um beta próximo a 1.

Pra mim, esta carteira é assim:

Pequeno spoiler da planilha secreta da capivara

Outros exemplos seriam:

  • 100% VWRA;
  • 100% CSPX;
  • 88% IWDA e 12% EIMI (igual o VWRA, porém a um custo ligeiramente menor)
  • 100% IWDA;
  • 100% QQQ ou CNDX.
  • Ou qualquer outra combinação que te permita dormir com serenidade.

É isso, por hoje.

Investimento longo e próspero, amigos! 💎🖖

— Capivara

PS: este é o terceiro texto da série sobre ETFs. Clique aqui para ver a série completa. O próximo será um guia prático de como pesquisar um ETF.

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PS: use os botões abaixo para compartilhar este texto com aquele seu amigo ou “influencer” que acredita que iniciante não deve investir globalmente! Ou que existe forma mais fácil que essa de atingir a independência financeira. Ele pode estar precisando deste conhecimento. :=)

PS: mande também para o seu amigo nerd que acha que estratégia de investimento em fatores é o Santo Graal dos investimentos. Na minha humilde opinião, não é bem assim, pelo menos no contexto da independência financeira. Me diz nos comentários se você quer um texto apenas sobre isso.

2 comentários

  1. Com todo respeito à inteligência capivareira (é assim que fala?), eu me questiono um pouco o quanto o beta ou a volatilidade ser relevante pra quem pensa em longo prazo. Ainda mais investindo em ETFs globais.
    Esse video de um youtuber americano traduz bem o que quero dizer:
    https://www.youtube.com/watch?v=v6j8ewrcxd8

    TL;DR: volatilidade não é a mesma coisa que rendimento no longo prazo e não é muito importante pra quem não quer vender a ação (ou ETF) nos próximos dias. Portanto, beta =/= risco

    1. Eu concordo com o Bagel eu também acho que o uso da palavra “risco” para descrever volatilidade induzem as pessoas ao erro. Mas eu não diria que é correto pensar que uma medida de volatilidade só é relevante no curto prazo, pelo menos de acordo com a teoria do portfólio moderno. O ponto principal desse texto é que eu vejo muita gente super preocupada em escolher a combinação perfeita de ETFs, quando que na prática, contanto que a carteira seja amplamente diversificada, eu acho que não dá pra dizer que uma combinação de ETFs será melhor do que a outra se elas tiverem o mesmo beta. Estou planejando escreve um texto chamado “reflexões sobre risco” para entrar em mais detalhes sobre esse assunto.

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