O que é um ETF? Explicado por uma capivara

ETF significa fundo de investimento negociado em uma bolsa de valores (em inglês: exchange-traded fund).

O que é um fundo de investimento?

Você, investidor racional, sabe que investir em ativos financeiros é arriscado.

Por exemplo, se você era uma pessoa que amava fotografia nos anos 90 poderia ter comprado ações da Kodak, pois era uma das maiores e mais lucrativas empresas do mundo na época. Ser dono da Kodak era, para você, uma oportunidade de receber parte destes lucros na forma de dividendos.

Receber os lucros de uma das empresas mais lucrativas do mundo? Nada mal, não? (arte por @fn_baba)

Não é bem assim. Veja, após o ano 2000 o mercado de filmes e revelações se tornou rapidamente obsoleto com a invenção da fotografia digital, e a Kodak não conseguiu adaptar o seu modelo de negócios a tempo. Quem tinha todo o seu patrimônio investido em ações da Kodak perdeu quase toda a sua riqueza.

A lição aqui é: investir em apenas um, ou poucos, ativos financeiros é extremamente arriscado. Mesmo empresas que foram muito lucrativas no passado podem perder valor rapidamente se uma inovação tecnológica ou um competidor mais eficiente surgir.

É importantíssimo ressaltar que não existe análise técnica, análise quantitativa, tampouco análise fundamentalista, que consiga prever esse tipo de evento. Tentar escolher ações individuais se baseando nestes tipos de análises é como tentar andar de bicicleta olhando pra trás. Spoiler alert: não vai dar muito certo e você acabará se machucando. Depois não diga que a capivara não te avisou!

Dito isso, fica evidente que — para um investidor racional — é necessário diversificar o seu patrimônio em muitos ativos que sejam compatíveis com os seus objetivos financeiros.

Porém, seria muito difícil para um investidor, sozinho, comprar ações de centenas de empresas — de diferentes geografias e áreas de atuação — porque ele não teria dinheiro para comprar uma unidade de cada ação que ele gostaria de ter, nem tempo para pesquisar os fundamentos de centenas ou milhares de empresas. E mesmo que ele tivesse muito tempo e dinheiro já vimos que análises que olham para trás, inclusive de fundamentos, não funcionam na prática.

Para resolver este dilema surgiram os fundos de investimento: que são cestas que podem conter ativos financeiros de todo o tipo. Por exemplo, ações, títulos, commodities (e.g. ouro, petróleo, etc.), imóveis, dentre outros. Desta forma, investidores individuais pequenos podem comprar cotas de um fundo de investimento, e assim — numa tacada só — investir em vários ativos de uma só vez.

Um fundo de investimento é uma cesta com diferentes ativos.

Antigamente, só existiam fundos de investimento ativamente gerenciados por gestores “profissionais”. Estes “profissionais” teriam o trabalho de pesquisar as melhores ações ou ativos e montar uma cesta que (na cabeça deles) seriam as mais rentáveis ou teriam a melhor relação de retorno por risco. Para comprar uma cota de um desses fundos, naturalmente, você deve pagar uma taxa de administração bem salgada para bancar o salário desses caras.

O problema disso é que, por volta dos anos 70, no mundo acadêmico, pesquisadores como o Eugene Fama descobriram que a grande maioria desses gestores perdiam para a média do mercado e que um macaco escolhendo ações aleatoriamente teria uma performance melhor — no longo prazo — do que a vasta maioria destes gestores “profissionais”.

Você, leitor deste site, também já sabia disso caso tenha lido o texto “Como funciona o mercado de ações?

Agora eu te pergunto: por que — você — pagaria taxas altíssimas para um gestor “profissional” que é mais burro que um macaco? Não faz sentido. ¯\_(ツ)_/¯

Foi aí que um jovem rapaz de meia-idade chamado John Bogle, criador da Vanguard, inventou o fundo de investimento passivo de baixo custo.

Num fundo passivo, não existem gestores escolhendo ações. O fundo simplesmente compra todas as ações que fazem parte de um grande e diversificado índice, como o S&P 500 ou o MSCI World.

Investir de forma passiva através de fundos de investimento de baixo custo está no cerne da estratégia de investimento popularizada por John Bogle. De longe a estratégia mais usada do universo por quem busca a independência financeira (FIRE). (Por algum motivo inexplicável esta estratégia ainda é pouco conhecida no Brasil, fato crucial que me motivou a criar este blog. Afinal, não podemos deixar os ricos continuar nos roubando.)

A comunidade de pessoas que investem seguindo esta estratégia se auto-denominam bogleheads. Existe um wiki muito maneiro com tudo o que você precisa saber caso você queira ser um boglehead também. (Hmmm… onde você acha que a capivara aprendeu a investir em ETFs domiciliados na Irlanda? Dica: não foi no Me Poupe!)

Tá, mas esse texto não era sobre ETF?

Calma. Eu curto história. Acho importante saber de onde vieram as coisas para entender o que são e como elas funcionam.

Antes de existirem os ETFs, já existiam os fundos mútuos de investimento passivo. As cotas desses fundos não são negociadas em bolsa e um investidor só pode entrar ou sair de um deles em momentos específicos. Esses fundos ainda existem, mas eu confesso que eles não fazem mais sentido num universo onde existem ETFs. Com ETFs você pode entrar e sair do fundo a qualquer momento que a bolsa estiver aberta, a um custo ainda menor que o dos fundos mútuos (como você irá aprender no próximo texto que estou escrevendo para esta série: “Como funciona um ETF?”).

Deste modo, vejo os ETFs como uma evolução dos fundos mútuos de investimento. ETFs são fundos de investimento mais práticos e baratos que os fundos mútuos, e se tornaram viáveis com a digitalização dos mercados financeiros.

Note que nem todo ETF é de ações e nem todos eles são passivos. Porém, os maiores e mais populares certamente são os ETFs de baixo custo que seguem índices passivos de ações. (Por exemplo, o CSPX.)

Por isso — hoje em dia — ETF virou quase sinônimo de fundo de índice passivo negociado em bolsa.

É isso.

Investimento longo e próspero, amigos! 💎🖖

— Capivara

PS: obrigado a todos os que votaram no 3º plebiscito da República!

Farei o texto “Como escolher um ETF?” em breve, mas percebi que seria difícil fazê-lo sem antes explicar o que é e como funciona um ETF. Portanto, nesta semana serão publicados 3 textos (ou mais) só sobre este tema. Assim espero tirar todas as dúvidas que os ilustres leitores deste humilde site possam ter.

PS: caso você seja um gestor “profissional” e se sentiu ofendido lendo este texto, por favor, deixe um comentário. Eu adoraria saber que atingi o meu objetivo. :=)

10 comentários

  1. Muito bom o texto Capivara. Eu, por acaso, recentemente esbarrei com o reddit dos bogleheads e lá eu acabei descobrindo como ETFs funcionam e como é muito mais tranquilo e eficiente investir por um ETF no US ou na Irlanda do que ficar tentando fazer o que os criadores de conteúdos BR ensinam. Comecei a estudar a fundo isso e agora com as cryptos, eu consigo investir bem melhor pesando bem entre ETFs e cryptos, ao invés de ficar tentando escolher fundos imobiliários e X ações da B3. Estou pra começar a mandar dinheiro pra comprar ETF em alguns dias e fico feliz de ver que você vai produzir conteúdo sobre o assunto, I’m looking forward to it.

  2. Capi, explica pra quem é noob como eu: como que exatamente funcionaria esse negócio de viver de renda de ativos que só valorizam e não pagam dividendos?

    1. Vamos supor que você precisa de 3 mil dólares para viver. Se, por exemplo, os seus ativos estão apreciando mais de 6 mil dólares todo mês, você poderia vender 3 mil sem nunca ver o seu patrimônio diminuir. Claro, isso é uma simplificação. Na prática, existe uma taxa chamada taxa segura de saque (SWR – safe withdraw rate), que irá te dizer quanto você pode vender do seu patrimônio por ano sem correr o risco de esgota-lo antes de você morrer. Falarei mais sobre essa taxa em posts futuros, pois ela é muito importante e literalmente todos os educadores financeiros brasileiros, até o Paranhos, estão ensinando ela do jeito errado.

  3. ooo capivara. obrigado pelo post.
    como que eu faço pra embarcar nos etfs gringos? plataformas gringas?

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.