Não sabe nada sobre investimentos? Comece aqui!

Este post é para você, amigo ou amiga, que não sabe nada sobre investimento e está começando a pensar sobre o assunto agora.

Um erro muito comum de pessoas que estão começando a estudar sobre investimentos é se questionarem se vale a pena investir mesmo sobrando pouco dinheiro no final do mês.

Sempre vale a pena investir qualquer valor que você não pretende usar imediatamente!

Note que quando você recebe renda pelo seu trabalho, em Reais, você está automaticamente investindo no ativo Real, a moeda; que é um péssimo investimento, pois a cada momento ele está perdendo valor para a inflação.

Portanto, não existe a opção de não investir. Ter dinheiro parado na carteira ou no banco nada mais é do que ter um investimento que dá prejuízo.

O que é um ativo?

Um ativo é uma coisa que você pode ter e possui algum valor. Por exemplo, um carro, um imóvel, um título público ou privado, Dólares, Reais, ações, cotas de um fundo de ações (i.e. ETFs), dentre outros.

Se você usa os seus Reais para comprar Títulos do Tesouro, você deixa de ter Reais e passa a ter Títulos, do mesmo jeito que quando você compra um carro, você não tem mais aquele dinheiro, agora você tem um carro. O mesmo vale para ações ou cotas de um fundo de ações. Se você compra uma ação ou cota, você deixa de ter o ativo Real que você tinha antes e passa a ser dona da ação ou cota.

Em qual ativo investir depende do que você planeja fazer com esse dinheiro no futuro.

Renda fixa é o melhor investimento para todos os iniciantes?

No Brasil, infelizmente, a maioria das pessoas é pobre e sempre terá alguma necessidade de capital no curto ou médio prazo. Por isso, muitos educadores financeiros brasileiros passam a maior parte do seu tempo falando de renda fixa.

Porém, nem sempre a renda fixa é a melhor opção, nem a mais simples, nem a mais segura. Depende do objetivo.

Portanto, antes de começar, tenho uma coisa para te dizer:

Hey, parabéns!
Hey, parabéns!

Se você está numa posição que pode investir todos os meses para um objetivo de longo prazo, você é mais rico que a maioria dos brasileiros. :=D

E se eu não souber qual o meu objetivo?

Muita gente tem dinheiro sobrando no final do mês, mas não tem um objetivo. Se esse for o seu caso, permita-me sugerir como objetivo a independência financeira.

Viver de renda passiva no futuro é um nobre objetivo, significa não depender de trabalho para viver e poder dedicar todo o seu tempo ao que te faz feliz. É o meu objetivo financeiro também! :=)

Para atingir a independência financeira, o ideal é você investir em ativos que apreciem com o tempo, ou seja, que aumentem de valor em relação ao seu custo de vida.

E o risco?

Nas finanças, risco tem um significado específico, um pouco diferente do significado que usamos no dia a dia.

Quando um economista fala de risco, no contexto de um investimento financeiro, na maioria das vezes ele está se referindo a volatilidade.

O que é volatilidade?

Volatilidade são as subidas e descidas do valor monetário (o equivalente em dólares ou reais) de um ativo com o tempo. Por exemplo, se você tem X cotas de um fundo de ações, hoje elas podem valer o equivalente a 1000 reais, daqui a uma semana 900, daqui a um mês 1200. Quanto mais volátil um ativo, mais o seu valor varia em relação ao seu preço médio.

Note que diferentes ativos terão diferentes volatilidades.

Valorização do S&P 500 e Ibovespa de 2010 até hoje (out/21). Note que o Ibovespa foi mais volátil do que o S&P 500. Só teria valido a pena para um investidor em 2010 investir no Ibovespa se houvesse expectativa de retorno maior, o que não foi o caso.
Valorização do S&P 500 e Ibovespa de 2010 até hoje (out/21). Note que o Ibovespa foi mais volátil do que o S&P 500. Só teria valido a pena para um investidor em 2010 investir no Ibovespa se houvesse expectativa de retorno maior, o que não foi o caso.

Você pode escolher ativos com mais ou menos volatilidade, a depender dos seus objetivos. Por exemplo, fundos de ações globalmente diversificados podem demorar até 10 anos para recuperar o seu valor real após uma crise. Portanto, pode não ser o investimento apropriado para uma pessoa que tenha um objetivo financeiro em menos de 10 anos.

Perceba que renda fixa, inclusive os títulos públicos como o Tesouro Direto, também podem ser voláteis!

Diferença entre a volatilidade de um fundo de renda fixa (IMAB11) e o índice Ibovespa. A renda fixa é menos volátil, porém a volatilidade não é zero.
Diferença entre a volatilidade de um fundo de renda fixa (IMAB11) e o índice Ibovespa. A renda fixa é menos volátil, porém a volatilidade não é zero.

A diferença do título em relação às ações e aos fundos de ações é que ele te garante um valor fixo no dia do seu vencimento. Por exemplo, se você comprar um título prefixado que vence em 2024, você saberá exatamente quanto terá em 2024.

Existem títulos atrelados a outros índices, como a inflação ou a taxa Selic. Nesse caso você não saberá exatamente quanto terá, mas saberá que será o rendimento de uma taxa mais esse índice. É importante saber, e muita gente se esquece disso, que o título também é volátil se você decidir resgatá-lo antes do vencimento. Quanto mais perto de vencer, menos volátil ele fica.

Historicamente fundos de ações renderam muito mais do que títulos no longo prazo. Isso também pode ser pensado como uma recompensa ao investidor com mais tolerância à volatilidade, pois o mercado de ações é mais volátil que o mercado de títulos. Como disse o Warren Buffett: “o mercado financeiro é uma máquina de transferir dinheiro de pessoas impacientes para pessoas pacientes.”

Se os seus objetivos são de longo prazo, mais que dez anos, faz mais sentido investir em um fundo de ações globalmente diversificado, como o IVVB11, que está disponível nas corretoras brasileiras e inclui as empresas que fazem parte do índice S&P 500.

Escrevi um post alguns dias atrás sobre como funciona o mercado de ações que pode ser interessante para você, que está começando a estudar investimentos agora. Note que se você sabe falar inglês e se vira bem na Internet, pode valer mais a pena investir por corretoras no exterior. Apesar de soar assustador para um investidor iniciante, hoje em dia é quase tão fácil investir por uma corretora estrangeira quanto por corretoras brasileiras. Farei um post sobre as vantagens de investir por uma corretora no exterior em breve.

E as emergências?

Outro ponto que os iniciantes devem estar atentos são as necessidades de capital em prazos menores do que 10 anos, incluindo emergências.

Não existe fórmula para reserva de emergência. Depende da situação de cada um. Por exemplo, um jovem que mora com os pais, em imóvel quitado, arrumou o primeiro emprego, mas não tem nenhum custo fixo na vida, talvez nem precise de reserva de emergência. Por outro lado, o trabalhador de uma empresa com alta rotatividade de funcionários, com filhos, mora de aluguel e tem várias prestações para pagar todo mês, provavelmente precisará de uma reserva de emergência bem grande. Se você tiver necessidade de uma reserva de emergência, é melhor investir uma parte do seu patrimônio em um ativo que seja muito pouco volátil, como o Tesouro Selic.

Note que quanto menos volátil, menor o rendimento esperado. Portanto, seria muito difícil ter renda passiva suficiente para ter independência financeira investindo só em um ativo como o Tesouro Selic, que pode render até menos que a inflação.

Quando a renda fixa faz sentido?

Outro motivo para investir em renda fixa é se você sabe que terá necessidade de capital próximo a uma data específica. Por exemplo, você quer economizar para pagar uma escola particular para o seu filho quando ele estiver no ensino médio. Nesse caso faria sentido, faltando menos de 10 anos para o seu filho entrar no ensino médio, começar a alocar uma parte do seu patrimônio em títulos que vencerão próximo à data em que você irá precisar do dinheiro. Assim você se protege da volatilidade.

Um adendo para falar sobre custo de oportunidade:

Muitas pessoas subestimam o custo de oportunidade.

Custo de oportunidade é o que você deixou de ganhar por ter comprado um ativo e não outro. Por exemplo: João comprou um título público que venceria em 10 anos e ganhou 10 mil reais de rendimento. Maria investiu o mesmo valor num fundo de ações e no final de 10 anos teve um lucro de 50 mil reais. João, que investiu no tesouro, deixou de ganhar 40 mil reais nesse período por desconhecer a possibilidade de investir num fundo de ações. Esse “deixou de ganhar” é um custo tão real quanto perder 40 mil reais, apesar da maioria das pessoas não pensarem dessa maneira.

Como João investiu no tesouro, mesmo sabendo que ele não iria precisar do dinheiro em menos de 10 anos, na prática, ele acabou “pagando” 40 mil reais pelo conforto de não se expor a volatilidade de um fundo de ações. Porém, como o objetivo dele era de longo prazo, este conforto não teve nenhuma utilidade para ele. Ele gastou 40 mil em algo que ele não precisou. É a mesma história do Alfredo, que comprou uma Ferrari só para andar nos engarrafamentos de São Paulo. Ele acabou comprando um carro super potente, mas nunca precisou desse motor todo. Foi um desperdício de dinheiro.

Conclusão

Analise os seus objetivos e o seu horizonte de investimentos. Reflita se você é uma pessoa que pode ou não tolerar a volatilidade de um fundo de ações. Pondere se você terá alguma necessidade de capital no curto ou no médio prazo e se planeje de acordo, comprando títulos apenas quando necessário. Não subestime a inflação e o custo de oportunidade. Pense em termos de crescimento do patrimônio no longo prazo e não cometa o erro de só pensar no valor monetário dos seus ativos no curto prazo. Faça os seus aportes todo mês e não fique olhando o valor da sua conta na corretora todo dia, pois essa informação não tem nenhuma utilidade para você, investidor de longo prazo.

Por hoje é isso. Se tiver dúvidas, pode perguntar aí nos comentários ou no Reddit. :=)

Investimento longo e próspero, amigos! 💎🖖

Capivara

PS: quer continuar estudando? Recomendo em seguida ler o post “Como funciona o mercado de ações”.

Em breve farei outro post para iniciantes explicando melhor como funciona o mercado de renda fixa. Fique de olho!

18 comentários

  1. Pelo andamento das postagens (conheci o blog hoje, vindo de cima para baixo) me parece que você tem uma grande parte ou da sua carteira aplicado em S&P 500? Ou você mantem outros tipos de investimentos?
    Vi que voce aplica lá fora, mas você realiza investimento aqui na bolsa brasileira?

    1. Como eu não tenho objetivos de curto ou médio prazo, nesse momento tenho 100% dos meus investimentos em fundos de índice passivos. Em breve farei um texto detalhando a minha carteira, mas é basicamente 50% CSPX, 40% IWDA e 10% EIMI. Dentro de EIMI já tem uma parte que é bolsa brasileira. Portanto não vejo necessidade de investir em separado na bolsa brasileira. Na verdade, nem tenho conta conta em corretora do Brasil.

  2. Olá, estou adorando seu blog, gostaria de saber se você pode indicar mais fontes para quem está iniciando, alguma bibliografia por exemplo, pretendo começar a investir parte da minha renda mas ainda sou extremamente leigo!!!

  3. Poderia esclarecer melhor o custo de oportunidade?
    No momento da escolha, não era possível saber que o fundo se daria MUITO melhor. Maria poderia ter terminado +8 mil ou +2 mil, perdendo pros +10 mil do João, ou mesmo ficar negativo nesse período.

    Entendo o conceito que o “custo de oportunidade para alguma coisa é o valor de qualquer coisa que você tenha sacrificado para obtê-la”, e então, “o custo de oportunidade representa o valor associado à melhor alternativa não escolhida”.

    Parece-me que o custo de oportunidade é útil ao avaliar um custo tangível que será perdido dependendo das escolhas atuais.
    No caso, a escolha de João ou Maria está muito mais além e para mim não dá medir nada com o custo de oportunidade.

    1. Note que a volatilidade do mercado de ações tendem a gerar oscilações no mercado apenas no curto ou médio prazo. Eu não estou falando de uma ação individual, cujo resultado no longo prazo é completamente imprevisível e pode até chegar a zero no caso da empresa falir. Eu estou falando do investimento amplamente diversificado em centenas ou mais ações. Existem mais de cem anos de dados históricos de índices como o S&P 500, por exemplo, de forma que é possível afirmar com um alto grau de confiança, baseado nos estudos estatísticos dos dados históricos, que a volatilidade no valor de uma cesta amplamente diversificado (de forma que o risco individual de cada empresa se dilua e sobre apenas o risco sistêmico) se restringe a prazos menores do que 10 a 15 anos.

      Portanto, no contexto da independência financeira (FIRE), com horizontes de longo prazo, é possível saber com praticamente 100% de certeza que títulos terão uma performance inferior a ações.

      Por isso o custo de oportunidade existe e é previsível, pois temos centenas de anos de dados históricos que podemos usar como evidência para fazermos inferências estatísticas do que acontecerá no futuro. Quando fazemos a matemática percebemos que as oscilações tem diferentes frequências, mas elas tem um tamanho máximo, e portanto não influenciam o valor do mercado de ações como um todo no longo prazo.

      Veja o S&P 500, por exemplo: historicamente, o melhor retorno anualizado de um prazo consecutivo de 5 anos é 28%, o mediano é 14%, o pior -2,3%. Veja que tem uma distância muito grande entre a pior sequencia de 5 anos e a melhor. Por outro lado, ao se analisar um prazo consecutivo de 25 anos, o melhore retorno anualizado é 17%, o mediano é 11% e o menor é 9%. Ou seja, valores muito mais próximos. Também é notável que não existe título de renda fixa que já tenha dado retornos de 9% ao ano ou mais por 25 anos concecutivos (tendo o dólar como referência), e seria praticamente impossível isso acontecer. Na verdade, a economia mundial não faria sentido e não funcionaria se isso pudesse acontecer na prática. Pois se houvesse nunca ninguém iria investir em ações, pois não existiria uma recompensa para suportar a volatilidade do mercado de ações.

      O ponto é que as previsões de longo prazo são muito mais precisas do que as de curto e médio prazo. Por isso que os títulos de renda fixa são mais úteis em prazos menores, pois eles protegem o capital da volatilidade natural do mercado de ações, em troca de um rendimento menor.

      Foi uma boa pergunta e este é um assunto mais complexo do que parece, um dia vou escrever um texto só sobre isso citando todas as referências acadêmicas necessárias para suportar o argumento com evidências.

  4. Uau, finalmente alguém com textos! Muito obrigado pelo seu trabalho e esforço! Isso está me ajudando!

  5. Capivara, qual a melhor maneira de um brasileiro, que mora e trabalha no Brasil, investir em S&P 500?

    1. Nesse momento, eu acho que é CSPX ou VUAA, ETFs de acumulação que podem ser compradas em corretoras globais, como a Interactive Brokers.

  6. Como um iniciante era EXATAMENTE este tipo de conteúdo que eu estava procurando! nossa, muito legal, esclareceu varias dúvidas e me deu muita coisa para pensar, parabéns Capivara!

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